Solstício: você sabe que existe uma noite, todo ano, que é mais longa que todas as outras?

Solstício: você sabe que existe uma noite, todo ano, que é mais longa que todas as outras?


Solstício


Você sabe que existe uma noite, todo ano, que é mais longa que todas as outras?


É o solstício de inverno. O dia em que o sol se põe mais cedo, demora mais pra voltar, e a escuridão fica por mais tempo do que em qualquer outra noite do ano. Fico imaginando como era viver isso há milhares de anos. Sem luz elétrica, sem aquecedor, sem a certeza que a gente tem hoje de que amanhã o sol nasce de novo. Pra eles, aquela noite carregava um medo de verdade: e se o sol não voltar? Sem ele não tinha calor, não tinha colheita, não tinha vida.


Então acendiam fogueiras e ficavam ali, juntos, a noite toda. Manter o fogo aceso era a única coisa que podiam fazer contra o escuro, um jeito de dizer pra si mesmos que ainda tinha vida ali, que valia a pena esperar. E ninguém dormia. Como dormir sem saber se o sol ia voltar? Ficavam acordados, de olho no céu, segurando o medo a noite inteira, esperando o primeiro sinal de que tinham chegado até a manhã.


E o sol voltava.


Pra muitos povos, atravessar essa noite era uma passagem. O sol que sumia levava junto o ciclo que acabava. O que nascia trazia o começo de outro. Quem chegava do outro lado não era mais quem tinha entrado.


Tenho pensado nisso ultimamente.


Porque hoje ninguém tem mais medo de que o sol suma. Aperta um botão e tem luz, tem calor. Mas as noites longas não acabaram, elas só mudaram de lugar. Foram pra dentro. São aquelas fases que parecem não ter fim, quando a luz some e a gente não faz ideia de quando ela volta. Travessias também. Só que ninguém acende fogueira por elas.


A gente quer apagar logo o escuro. Chegar do outro lado sem precisar passar por ele. Mas eu fico pensando se tem como. Se dá pra atravessar uma noite sem ficar dentro dela.

Aqueles povos não conseguiam fazer o sol voltar mais rápido. A única coisa que dava pra fazer era acender o fogo e velar. Ficavam ali, um do lado do outro, atravessando o escuro juntos até a manhã chegar.


E eu acho que é isso que a gente esquece de fazer com a gente mesma.


Quando chega uma dessas noites longas por dentro, a primeira coisa que a gente faz é se abandonar. Se cobrar pra passar logo, se irritar por ainda estar ali. A gente vira dura com a gente mesma bem na hora em que mais precisava de colo. Mas velar é só isso: ficar ao seu próprio lado. Acender uma luzinha que seja e esperar, com cuidado, a noite passar.


Porque ela passa. Sempre passou. Aqueles povos atravessaram cada inverno sem nenhuma garantia, e mesmo assim o sol nasceu todas as vezes. Nasceu pra eles, vai nascer pra você.

Mesmo na noite mais longa do ano, a luz já começou a voltar.


Você só ainda não consegue ver.

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