Não tem hora pra bater o ponto, não tem alguém dizendo "por hoje chega". Sou eu que decido se o dia foi suficiente. E o problema é esse: como é que eu meço? Quanto é suficiente? Se eu produzi bastante, se eu entreguei o bastante, se eu podia ter feito mais. A régua é minha, e mesmo assim ela nunca me dá sossego.
Aí, quando eu paro, quando eu simplesmente não faço nada, vem a culpa. Rápida, quase automática. Uma voz que lembra as mil coisas que eu poderia estar adiantando agora. Como se todo tempo parado fosse uma dívida que eu vou ter que pagar depois.
(E ninguém me ensinou a parar. Ensinaram a entregar.)
Mas tem uma coisa que eu não consigo mais ignorar. As soluções que eu procuro, elas quase nunca aparecem quando eu tô sentada tentando resolver. Elas chegam no meio do nada. Num banho, numa caminhada, num tempo que era pra ser perdido. É como se a resposta precisasse de espaço vazio pra caber, e eu vivo entulhando esse espaço de tarefa.
Então talvez o tempo ocioso não seja o oposto do trabalho.
Talvez ele seja onde o trabalho de verdade acontece, sem eu ver, sem eu poder medir.
O engraçado é que saber disso não tira a culpa. Eu ainda sento pra não fazer nada e a voz vem. Mas acho que lidar com ela não é fazer ela calar. É ficar ali, no vazio, mesmo com ela reclamando no fundo. Deixar a solução brotar enquanto eu finjo que não tô esperando nada.
Ainda tô aprendendo isso. Esse texto, inclusive, nasceu num desses tempos que eu ia jurar que estava perdendo.

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