O que você quer ser quando crescer?

O que você quer ser quando crescer?



Quem nunca escutou essa pergunta na infância?

Essa pergunta sempre me gerou uma inquietação, uma ansiedade, porque eu via um mar de possibilidades e desejos e sentia que era pressionada a escolher uma coisa só.


Um único caminho, uma única forma de viver. Isso me paralisou por um bom tempo, porque eu entendi desde cedo que toda escolha que eu fizesse teria o pré-requisito de uma renúncia. Mas não escolher também sempre foi uma escolha.


E a pergunta não para na infância. Ela só muda de roupa. Vira "e você, o que faz?" numa mesa de jantar, e a gente responde uma palavra, duas, e a pessoa acena e a conversa segue. Eu digo fotógrafa. Às vezes digo diretora criativa, depende de quem pergunta. Nenhuma das duas é mentira e nenhuma das duas dá conta, e eu fico ali com a sensação de ter entregado uma versão reduzida de mim pra alguém que só queria puxar assunto.


A gente aprendeu desde cedo que não era possível caber. Que existia um tamanho certo e que a gente ia ter que se dobrar até dar. Então a gente dobra. Escolhe uma profissão, uma cidade, uma versão, e vai apertando o resto até caber na resposta de mesa de jantar.


E funciona, por um tempo.

Até que uma certa angústia e inquietação começam a cutucar.


E aí vem a parte que ninguém avisa: isso não é sinal de que você escolheu errado. Eu passei anos achando que era. Que se eu ainda queria outras coisas, então a vida que eu construí estava errada, ou eu estava errada, ou faltava alguma coisa que eu ia descobrir depois. Fui atrás de resposta em terapia, em livro, em mudança de rota.


A minha maior jornada dos últimos anos tem sido aprender que a vida não é binária. Não é só o sim e o não, certo e errado. Tem uma quantidade de coisa que existe no meio. E geralmente é nesse intervalo que a parte mais gostosa da vida acontece.


A lógica que me ensinaram era apenas de subtração. Como se de alguma forma, quando você muda de rota, todo o resto se anulasse. Mas tenho certeza que você sabe na própria pele que isso não é verdade.


Temos algumas dimensões da nossa existência coexistindo. As cicatrizes nos acompanham mesmo quando mudamos de caminho, e as sementes de alegria também. Nada disso pede licença pra ficar. Simplesmente fica.


E é por isso que eu não consigo mais responder a pergunta.


Não porque eu não saiba. É porque a resposta honesta não cabe numa mesa de jantar. Eu sou o que escolhi e o que deixei pra trás, o que ainda quero e o que nunca vou fazer, e todas essas moram aqui juntas, sem se anular.


Hoje eu acho que crescer nunca foi virar uma coisa só. Eu cresci. Continuo várias.

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