O primeiro gesto do amor

O primeiro gesto do amor



Desde que a Summer nasceu, eu peguei uma obsessão nova: mitologia grega. Metade do DNA dela vem da Grécia, e de alguma forma isso virou um convite. Comecei a estudar, a ler, a me perder nessas histórias que têm milhares de anos e continuam dizendo coisas sobre a gente. Eu já amava filosofia antes, então foi um caminho meio natural. E sigo firme com a mesma ideia daquele filósofo que, por acaso (ou não), tem o mesmo nome do pai da Summer: "só sei que nada sei".

E aí junho chegou, com toda aquela conversa sobre amor — as vitrines, os jantares, os buquês — e eu lembrei de uma história muito boa. É ela que eu quero contar hoje pra vocês.


Dizem que Afrodite, a deusa do amor, nasceu da espuma do mar. Não veio de ninguém, o mar a fez sozinha. Ela atravessou a água sobre uma concha e, quando seus pés tocaram a terra pela primeira vez, flores nasceram no caminho. As deusas das estações estavam esperando por ela na praia, prontas pra vesti-la. Como se o mundo inteiro soubesse que algo importante estava chegando.


Eu fico voltando nessa imagem.


Porque ela diz uma coisa que a gente quase nunca para pra pensar: o amor, na mitologia grega, chega ao mundo sozinho e já completo. Antes de existir qualquer casal, qualquer carta, qualquer junho, existia uma mulher saindo do mar inteira por si mesma, fazendo a terra florescer só pela própria presença.


O primeiro gesto do amor no mundo não foi entre duas pessoas. Foi uma chegada a si.


Isso não diminui nenhum outro amor. Pelo contrário. Os gregos parecem ter entendido algo que a gente vive esquecendo: o amor pelos outros não nasce do nada. Ele nasce de alguém que chegou primeiro em si, e que, por estar inteira, transborda. A terra não floresceu porque Afrodite amava alguém. Floresceu porque ela existia por completo.


Os romanos deram outro nome a ela: Vênus. Que é também o nome da primeira estrela que aparece no céu, antes de todas as outras, quando o sol vai embora. Eu acho isso bonito demais pra ser coincidência. O amor como aquilo que aparece primeiro. Antes de tudo. Antes de todos.


Não sei se a gente lembra disso o suficiente. Eu mesma esqueço. A vida vai empurrando o cuidado consigo pro fim da lista, como se fosse luxo, como se fosse coisa pra depois (e o depois nunca chega, né).

Mas aí eu penso na imagem de novo. Uma mulher saindo do mar. Flores nascendo onde ela pisa.


E fico me perguntando o que floresceria por aqui, se eu chegasse inteira mais vezes.

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