Eu construí a vida inteira em cima de ter um mundo próprio.
Um jeito de ver, de fotografar, de escrever, de pensar as coisas.
É isso que eu defendo, é isso que eu sou.
E é isso que eu vendo.

E aí mora uma coisa que eu não sei bem como resolver.
Porque no momento em que o meu mundo vira trabalho, ele precisa ser aceito. Precisa ser comprado, aprovado, escolhido. Eu passo os dias defendendo que não é pra corresponder à expectativa de ninguém, que o valor tá em ser inteira, autoral, sem pedir licença. Mas eu vivo disso. Então, de algum jeito, eu preciso que aceitem. Preciso que gostem.
Onde termina a autoria e começa a validação? Eu não sei mais.
Às vezes eu me pego achando que sou livre porque criei meu próprio caminho. Mas será que eu só troquei os donos do roteiro? Antes era o mercado, o que se espera, o que dá certo. Agora sou eu que escrevo, sim, mas escrevo torcendo pra que aprovem o que escrevi. A régua mudou de mão. Não tenho tanta certeza de que ela deixou de existir.
(E o mais estranho é que eu não quero abrir mão de nenhum dos dois lados. Quero o meu mundo, e quero que ele seja aceito. Os dois. Ao mesmo tempo.)
Talvez seja essa a linha tênue que eu vivo em cima. Não dá pra ser só autora, ignorando o mundo. Não dá pra ser só o que o mundo quer, sumindo dentro disso. Fico no meio, equilibrando, um pé em cada.
E acho que vou ficar aqui por um tempo. Sem escolher. Torcendo pra que dê pra ser as duas coisas.
Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar.
Deixe um comentário